Opinião: Gestão Pública por aparência

- por
  • Compartilhe:

Ao longo da breve história das teorias administrativas, muitos métodos e princípios foram desenvolvidos para orientar os gestores. No âmbito da administração pública ou privada, nessa última especialmente, o gestor escolhe o modelo administrativo mais condizente com o seu próprio perfil de ação e com os objetivos organizacionais da atividade desenvolvida.

Assim, ouve-se falar, por exemplo, em gestão com foco no processo, em gestão com foco no resultado e em gestão por competências. Não obstante, alguns gestores públicos ocupantes de cargos eletivos consideram que ainda são poucas as modalidades administrativas existentes e, ao longo do tempo, vêm trabalhando numa nova linha: a gestão por aparências.

Essa novidade, apesar de ter pouco espaço no âmbito teórico, é amplamente empregada na prática e surte, muitas vezes, os efeitos esperados por seus implementadores. Basicamente, a técnica necessita de quatro fatores: uma sociedade pouco assistida em termos de formação e de informação, de um funcionamento bem estruturado e esquematizado das redes sociais e veículos de comunicação, de um discurso articulado de defesa dos interesses populares e, principalmente, da passividade daqueles que deveriam fazer o papel de fiscalizar e cobrar os resultados esperados. Se tais fatores acontecem de forma harmônica e perfeitamente alinhada, o modelo revela-se infalível.

Segundo o que se observa na prática, não é preciso fazer muito, basta se divulgar bastante o pouco que se faz e, dessa forma, gera-se um sentimento de que muito se realizou. Alinhado a isso, necessita-se de um pequeno exército de pessoas que se disponham a dar a vida em defesa desse pouco que foi feito ou, ainda, daquilo que não foi feito. Geralmente, os dois tipos de pessoas escolhidas para compor esse exército são estas: cabos eleitorais e falsos militantes que ou defendem interesses pessoais diversos ou que perderam o senso da realidade diante de um contexto político marcado pela perda de limites morais e de um ufanismo sem razões.

Outro grupo que contribui para engrossar as fileiras soldadescas é o dos desprovidos de informação, os quais não agem por má fé, e sim, por não conseguirem compreender que as ações básicas desenvolvidas pelo poder público constituem um direito irrevogável dos cidadãos. Quando bem ludibriadas, essas pessoas são conduzidas a um mar de enganações e imergem num oceano profundo de personalismos que são extremamente danosos ao processo democrático em todos os seus fundamentos. Encontrando-se em tal situação, o indivíduo perde aos poucos a sua capacidade de enxergar e de diferenciar a verdade e a mentira, a realidade e a aparência.

Uma última ponderação que considero necessária é que os usuários dessa nefasta prática administrativa não ficam inertes o mandato inteiro, pois a cada período eleitoral, observa-se um ação empenhada desses agentes na implementação de serviços, na realização de obras e na criação de projetos. Tudo isso, como você mesmo pode concluir, no intuito de conquistar mais pessoas e fortalecer seus exércitos.

E com essa condição bem posta é que muitos gestores públicos vão se mantendo no poder e implantando suas ações que nem sempre (ou quase nunca) correspondem às necessidades do povo.


 Por Gerlyson Girão

Bacharel em Administração e servidor público do Poder Executivo Federal, lotado na Universidade Federal do Ceará – Campus Quixadá. Atualmente, é estudante de Gestão Pública e realiza pesquisas na área de Economia, Gestão e Política. É pesquisador de políticas públicas para área rural, tendo trabalhos publicados sobre a avaliação do PRONAF e produtividade agropecuária.



Deixe seu comentário

Os comentários do site Monólitos Post tem como objetivo promover o debate acerca dos assuntos tratados em cada reportagem.
O conteúdo de cada comentário é de única e exclusiva responsabilidade civil e penal do cadastrado.