Por Jards Nobre
Tinha 19 anos quando assumi minhas primeiras turmas. Foi como professor substituto de uma ex-professora minha, que havia queimado a mão e tirado licença médica. Nem eram de língua portuguesa as minhas primeiras aulas!
A diferença entre mim e muitos dos alunos da 8a. série era de apenas 4 ou 5 anos, mas isso não foi nenhum problema. Comecei numa escola pública, municipal, rural. Depois vieram outras experiências, umas bem-sucedidas, outras nem tanto!
Ser professor! Imaginava isso desde criança. Desejava isso, preparava-me para isso como se já soubesse o que o destino me reservara… Ou fui eu quem decidiu isso para mim mesmo?
Foram muitas as aulas em que saí com a sensação de fracasso, de que não estava no caminho certo; as que me importam, entretanto, são aquelas em que vi olhinhos brilhando enquanto eu explicava algo; aquelas em que, no final, vieram me cumprimentar e me elogiar por ter conseguido elucidar algo até então incompreendido; aquelas em que não ouvi o desejado silêncio, mas muitas vozes, quase ao mesmo tempo, a me encher de perguntas… e aquelas últimas do ano em que recebi muitos abraços de alunos que, com lágrimas nos olhos, tentavam dizer o quanto fui importante e o quanto sentiriam minha falta.
Nunca recebi altos salários, não tenho um padrão de vida elevado por causa da profissão; já enfrentei, inclusive, problemas de saúde por conta do excesso de trabalho. Porém foi sendo professor que recebi os mais sinceros cumprimentos e agradecimentos, que me senti benquisto, que me senti rejuvenescido, que me senti admirado, que me senti amado.
Poucos profissionais são lembrados aonde chegam pela função que desempenham na sociedade, pelo serviço que prestam… Ninguém sai por aí agradecendo o vendedor por ter atendido bem, a cozinheira do restaurante onde se comeu bem, o pedreiro responsável pela lindo edifício que embeleza a cidade, o gari que limpou as ruas que, em breve, estarão completamente sujas de novo… E eu me sinto feliz por, como professor, ter recebido muitos e muitos agradecimentos pelas aulas que dei, mesmo muito tempo depois!
Talvez o cara que trabalha sentado, no silêncio de seu gabinete climatizado, sem muito ou nenhum contato com o ser humano, ganhando um salário trinta vezes mais alto que o meu, se sinta mais importante e feliz que os professores que passaram por sua vida e contribuíram para que ele chegasse até ali. Mas, certamente, sua profissão nunca lhe proporcionou sentir o calor humano ou o significado de seu papel no mundo como a minha profissão faz, assim como dificilmente fará com que as pessoas o amem por aquilo que ele faz.
Mais uma vez, citando Sinatra, “regrets I have a few, but, then again, too feel to mention!… I did it my way!”
Obs: Hoje, 22 de março de 2014, Jards completa 20 anos como professor.
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