Aceitar o fenômeno da mutabilidade e ser feliz assim mesmo, é o que temos para hoje

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Mais do que interessante, o fenômeno da mutabilidade pode ser produtivo e recompensador, mas não necessariamente, é claro.

É evidente, a título de ilustração, que não é apenas o nosso corpo que vai mudando, mas também a nossa mente. Não que ela envelheça, no sentido de ir se tornando deficiente em suas abordagens. Parece apenas que se reformula de tempos em tempos, acompanhando o passo de tudo o que mais existe, e especialmente como resultado das influências trocadas entre nós e o mundo a nossa volta.

Por exemplo, aquilo e aqueles a que/quem dávamos importância há apenas um ano ou até menos, talvez nem arranhem nosso interesse hoje. Os enquadramentos que estávamos acostumados a dar às pessoas, aos acontecimentos, aos sentimentos, aos sonhos, às instituições e à própria vida, vão mudando com impetuosa constância. É por isto, talvez, que algumas paixões passam, alguns desejos se acabam e a gente vai dando espaço às novidades. No processo, estas acabarão por passar também.

Enfocando este fenômeno da mutabilidade, cada vez mais evidente tanto mais moderno o homem se torna, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve nossos tempos como “modernidade líquida”. Para ele, hoje em dia nada é feito para durar, para ser “sólido”, o que acaba influenciando os mais diversificados aspectos da vida moderna, incluindo a obsessão pelo corpo e pelas formas, as crises econômicas e de segurança e até as relações amorosas. Tudo neste mundo é extremamente sensível ao fenômeno da mutabilidade, “líquido” mesmo.

Essa consciência de que “tudo passa” pode ser positiva se tomada como força que edifica a determinação e induz à perseverança no enfrentamento das dificuldades. Isto porque quem entende o processo da mutabilidade sabe que todo sofrimento, não importa o tipo, tem data marcada para acabar. Pode ser ainda hoje, amanhã, na semana ou no mês que vem, no próximo ano ou mais à frente. Tudo caminha inexoravelmente para a mudança, inclusive o sofrimento.

É por isto, também, que a humildade é um valor precioso e até necessário. É assim porque o fluxo de transformações nem sempre estará a nosso favor. Aqueles sobre quem alguns pisam na subida podem ser os mesmos que encontrarão amanhã, na descida. O cenário vai mudando e é bom estarmos preparados para perder tanto quanto estamos para ganhar. É a humildade – somada ao conhecimento da mutabilidade e liquidez do mundo – que pode nos ajudar a não desmoronar irremediavelmente nos momentos mais dolorosos.

Há muito sobre o que se pode pensar tendo o fenômeno da mutabilidade como pano de fundo. A necessidade de trabalhar pela manutenção de relações essenciais, a maneira como encaramos os valores materiais, as amizades, os trabalhos e as energias empenhadas em certos objetivos, a família, o amor, os governos, a cidade em que vivemos, a própria educação, e assim por diante.

Para alguns, talvez o mais complicado não seja reconhecer que a própria realidade, em seu escopo mais pleno – desde o vasto cosmos até os eventos mais simples da vida – estejam rendidos ao fenômeno da mutabilidade.

O difícil mesmo, talvez, seja aceitar que não podemos exercer controle total sobre o que pode e o que não pode mudar e, depois, vivermos felizes com isto. Mas não importa. Círculos maiores de mudança – tais como os processos que levam à nossa morte – estão neste exato momento em execução bem acima da nossa margem de influência. Utilizando termos bíblicos, logo voltaremos ao pó. Ou como dizia o poeta e dramaturgo Ariano Suassuna que, por sinal, já morreu: “O tempo duro tudo esfarela”. Isto é o que sabemos da vida, e é o que temos para hoje.

Por Gooldemberg Saraiva
(bergsaraiva@gmail.com)




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