+Cultura: A amante mais poderosa que já viveu no Brasil

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A Semana Santa mais intensa do Rio de Janeiro foi aquela de 1825. Os burburinhos se espalharam pela cidade e o assunto em todos os lugares não era outro: Domitila de Castro Canto e Melo, amante do Imperador do Brasil, Dom Pedro, foi alvo de um protesto promovido pelas senhoras da nobreza.

O episódio ocorreu quando Domitila subiu à tribuna de um teatro fluminense reservada às damas do Paço para assistir a uma cerimônia religiosa. No momento em que ela se sentou na cadeira de honra, as senhoras da nobreza se retiraram, uma a uma, silenciosamente. O ato era de repúdio ao romance adúltero entre Domitila e o Imperador, romance que havia exaurido emocionalmente a Imperatriz Leopoldina, esposa legítima de Dom Pedro e mulher muito amada na corte.

Um ano antes deste episódio embaraçoso, Domitila já havia passado por outra ocasião vexatória. Em setembro de 1824, ela foi barrada na entrada do Teatrinho Constitucional de São Pedro, onde se apresentavam os atores da “Companhia Apolo e suas Bombinhas”. Na ocasião, ao saber da notícia, Dom Pedro deu ordens para que o intendente geral da polícia, Francisco Alberto Teixeira de Aragão, nomeado já por influência de Domitila, suspendesse as representações da peça teatral, despejasse os atores do edifício e mandasse queimar seus pertences numa fogueira em frente à igreja de Santana.

mi_7519314235505594Para reparar a ofensa patrocinada pelas senhoras da nobreza contra sua amante, dias mais tarde o Imperador elevou-a ao posto de Dama de Honra da Imperatriz Leopoldina. Dessa forma, conferia a amante o direito de ocupar lugar privilegiado em todas as reuniões, passeios, viagens e outros eventos da corte.  Quem não gostou da medida foi a própria Imperatriz, que se viu obrigada a suportar a constante presença da amante do marido.

Para aumentar ainda mais o status quo de Domitila, Dom Pedro deu-lhe o título, em 12 de setembro do mesmo ano, data de seu aniversário, de Viscondessa de Santos “pelos serviços que prestara à Imperatriz”. Um ano depois, em 12 de setembro de 1826, Domitila seria elevada ao posto de Marquesa de Santos, honraria pela qual passaria para a história.

As regalias e os privilégios se estenderam à família da amante. Seus irmãos e parentes receberam empregos, títulos e benesses de Dom Pedro. O pai de Domitila, que morreu em 2 de novembro de 1826, foi sepultado com honras de Estado. O pomposo funeral, ao qual foi convidado todo o corpo diplomático e as mais altas autoridades do Império, custou 628.280 réis, preço de seis escravos ou seis cavalos de raça, pagos por Dom Pedro, que também anunciou que honraria todas as dívidas que o morto tivesse deixado na praça.

Enquanto Domitila crescia em prestígio a Imperatriz Leopoldina mergulhava cada vez mais fundo no abismo depressivo que a levaria à morte em dezembro de 1826. Desesperada com as demonstrações públicas de infidelidade do marido, Leopoldina chegou a pedir ao pai, Francisco I, que a aceitasse de volta em Viena. Diante da demora na resposta, cogitou abandonar o palácio e recolher-se ao convento da Ajuda no Rio de Janeiro e ali aguardar a decisão do pai, decisão que nunca veio.

A comunidade do Rio ficava continuamente perplexa com o poder alcançado pela amante de Dom Pedro.

A poderosa amante do Imperador faleceu em 13 de novembro de 1867, longe do amor de sua vida. Em seu testamento deixou encomendadas 50 missas pela sua própria alma. Só Deus sabe dizer se foram suficientes.

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Fontes Consultadas:

Tobias Monteiro, História do império: o Primeiro Reinado, p. 86;

Octávio Tarquínio de Sousa, A vida de Dom Pedro I, vol. 2, p.185, 221;

Laurentino Gomes, 1822, p.270.




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