+CULTURA: Um passeio pela história, causas e soluções para as diversas faces do preconceito

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Se você nunca sentiu na pele o que é o preconceito, talvez não compreenda como isso pode ser traumático. Não abordarei aqui todos os tipos de preconceito. Mas espero que goste da análise.

“Alguns convivem com ele em silêncio. Outros revidam o preconceito com mais preconceito”, observou o livro Face to Face Against Prejudice (Cara a Cara contra o Preconceito). De que maneiras o preconceito prejudica a vida das pessoas?

Caso pertença a um grupo minoritário, é provável que você perceba que as pessoas o evitam, olham-no de modo condenatório ou fazem comentários depreciativos sobre sua cultura. As oportunidades de trabalho talvez lhe sejam raras, a menos que aceite um emprego servil que ninguém mais queira. Talvez seja até mesmo difícil encontrar moradia adequada. Ou pode ser que seus filhos se sintam isolados e rejeitados pelos colegas de classe.

Pior ainda, o preconceito pode instigar as pessoas à violência ou até mesmo ao assassinato. É verdade, as páginas da história estão repletas de exemplos angustiantes de violência — gerados pelo preconceito — entre os quais estão massacres, genocídios e as chamadas limpezas étnicas.

Séculos de preconceito

Dois séculos após a morte de seu líder, os cristãos enfrentaram tratamento implacável. “Caso houvesse qualquer pestilência”, escreveu Tertuliano, do terceiro século, “o clamor imediato era: ‘Joguem os cristãos para os leões!’”

No entanto, começando no século XI com as Cruzadas, os judeus passaram a representar o grupo minoritário malvisto na Europa. Quando a peste bubônica varreu o continente, matando cerca de 25% da população em apenas alguns anos, ficou fácil culpar os judeus, visto que eles já eram odiados por muitos. “A peste serviu de desculpa para esse ódio e o ódio canalizou o medo que as pessoas tinham da peste”, descreve Jeanette Farrell em seu maravilhoso livro Invisible Enemies (Inimigos Invisíveis).

Um judeu no sul da França “confessou” sob tortura que os judeus eram os culpados pela epidemia por terem envenenado poços de água. É claro que sua confissão era falsa, mas essa informação foi divulgada como sendo verdadeira. Não demorou muito para que as comunidades judaicas da Espanha, França e Alemanha fossem dizimadas. Ninguém se deu conta de que os verdadeiros culpados eram os ratos, além de poucos perceberem que os judeus também morriam da peste, assim como todas as outras pessoas!

Uma vez acesa, a chama do preconceito pode continuar latente por séculos. Em meados do século XX, por exemplo, Adolf Hitler jogou lenha na fogueira do anti-semitismo culpando os judeus pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Ao final da Segunda Guerra Mundial, Rudolf Hoess — diretor nazista do campo de concentração em Auschwitz — admitiu: “Estava implícito no nosso treinamento militar e ideológico que devíamos proteger a Alemanha dos judeus.” E para “proteger a Alemanha”, Hoess supervisionou o extermínio de aproximadamente dois milhões de pessoas, a maioria sendo judeus.

Infelizmente, as atrocidades não acabaram com o passar das décadas. Em 1994, por exemplo, o ódio tribal na África Oriental surgiu entre os tutsis e os hutus, ceifando a vida de pelo menos meio milhão de pessoas. “Não existiam esconderijos”, relatou, na época,  a famosa revista Time. “O sangue escorria pela nave das igrejas onde muitos procuravam refúgio. . . . A luta era corpo a corpo, de caráter pessoal e indescritível, uma espécie de carnificina sanguinária que deixava em estado de choque os que conseguiam escapar.” Nem as crianças foram poupadas dessa violência terrível. “Ruanda é um país bem pequeno”, comentou certo cidadão para a reportagem da Time, “mas abriga todo o ódio do mundo”.

Os conflitos que resultaram na dissolução da ex-Iugoslávia levaram à morte mais de 200 mil pessoas. Vizinhos que viviam pacificamente havia anos passaram a matar uns aos outros. Milhares de mulheres foram estupradas e milhões de pessoas expulsas de suas casas à força, sob o comando duma política brutal: a “limpeza étnica”.

Embora não necessariamente induza as pessoas ao assassinato, o preconceito causa divisões e promove o ressentimento. Apesar da globalização, o racismo e a discriminação “parecem estar ganhando terreno na maioria dos países”, declarou um relatório recente da Unesco.

Como o preconceito se arraiga na mente e no coração das pessoas? Esta é uma pergunta interessante.

É pacífico entre os estudiosos que o preconceito pode ter diversas causas. Contudo, dois fatores bem-documentados são (1) o desejo de ter um bode expiatório e (2) a antipatia, originária dum histórico de injustiças.

Conforme indicado acima, na ocorrência de desastres, as pessoas procuram alguém para colocar a culpa. Quando pessoas de destaque propagam repetidas vezes uma acusação contra um grupo minoritário, essa se torna aceitável e daí nascem os preconceitos. Para citar um exemplo comum, quando países ocidentais sofrem reveses econômicos, muitas vezes os trabalhadores imigrantes são culpados pelo desemprego, apesar de aceitarem empregos que a maioria dos nativos não aceita.

Nem todo preconceito, porém, origina-se da busca dum bode expiatório. Pode também estar arraigado na História. “Não é exagero afirmar que o comércio de escravos edificou a estrutura intelectual da barreira racial e cultural para os negros”, observa o relatório UNESCO Against Racism. Os comerciantes de escravos tentaram justificar o infame tráfico de humanos alegando que os africanos eram seres humanos inferiores. Esse preconceito infundado, que posteriormente estendeu-se a outros povos colonizados, ainda existe.

Ao redor do mundo, histórias semelhantes de opressão e injustiça mantêm vivo o preconceito. Animosidades entre católicos e protestantes na Irlanda remontam ao século 16, época em que os governantes da Inglaterra perseguiam e exilavam os católicos. As atrocidades praticadas pelos chamados cristãos durante as Cruzadas ainda suscitam sentimentos fortes nos muçulmanos do Oriente Médio. A hostilidade entre sérvios e croatas nos Bálcãs piorou com os massacres de civis durante a Segunda Guerra Mundial. Conforme esses exemplos, um registro de inimizade entre dois grupos é capaz de alimentar ainda mais o preconceito.

O papel da ignorância

O coração duma criança pequena não abriga preconceitos. Ao contrário, os pesquisadores notam que uma criança quase sempre vai de imediato brincar com outra de raça diferente. É aos 10 ou 11 anos, no entanto, que ela talvez rejeite pessoas de outra tribo, raça ou religião. Durante os anos em que a personalidade ainda está em formação, a pessoa absorve diversos conceitos que podem durar a vida inteira.

De onde é que vêm essas idéias? Uma criança adquire conceitos negativos — tanto proferidos como não-proferidos — primeiro dos pais e depois dos amigos e professores. Mais tarde, vizinhos, jornais, rádio ou televisão podem influenciá-la ainda mais. Embora saiba pouco ou nada sobre os grupos de que não gosta, quando se torna adulto, a pessoa já concluiu que eles são inferiores e indignos de confiança. Ela talvez até os odeie.

Em vista do aumento das viagens e do comércio em âmbito mundial, expandiu-se em muitos países o contato entre culturas e etnias diferentes. Apesar disso, quem tem um preconceito acentuado normalmente se apega aos seus conceitos preconcebidos, insistindo talvez em estereotipar milhares — às vezes até milhões — de pessoas e presumindo que todas elas possuem em comum certas más qualidades. Qualquer experiência negativa, mesmo que seja com apenas uma pessoa do grupo, já serve para fortalecer seu preconceito. Experiências positivas, por outro lado, geralmente são encaradas como exceções à regra.

Reverter o quadro

Embora a maioria condene o preconceito em princípio, poucos conseguem escapar de sua influência. De fato, muitas pessoas cujo preconceito está profundamente arraigado insistem em afirmar que elas mesmas não são preconceituosas. Ainda outros dizem que isso não faz diferença, em especial se os preconceituosos mantiverem seus preconceitos para si.

Contudo, o preconceito faz, sim, diferença, porque magoa as pessoas e causa divisões. Se o preconceito é filho da ignorância, o ódio quase sempre é seu neto. O escritor inglês Charles Caleb Colton (1780-1832) certa vez comentou: “Odiamos algumas pessoas porque não as conhecemos; e não as conheceremos porque as odiamos.”

Resta apenas nos apegarmos à certeza de que se o preconceito pode ser aprendido, ele também pode ser desaprendido. Educação familiar, difusão do respeito às diferenças e investimentos em educação das crianças e dos adolescentes talvez fossem capazes de produzir uma geração que não se deixasse levar pelas horrendas faces do preconceito.

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