O envolvimento amoroso das personagens principais é apenas um detalhe no livro “Pássaros sem Canção”, do quixadaense Jards Nobre. É assim que desejo começar minhas observações sobre esta belíssima obra que acabo de ler.
Não vou fazer uma crítica técnica do livro, como muitos já o fizeram. Se bem que o autor, pela sua, merece muitos elogios. Mas não vou me alongar demasiadamente falando do óbvio: Jards Nobre é um craque no que faz!
Bruno Paulino, imortal da Academia Quixadaense de Letras, afirmou que “Jards Nobre é um escritor maduro, que não usa bijuterias para enfeitar o texto, embora seja com apurada precisão que lapide as palavras.” Sobre a habilidade de Jards Nobre, esta observação contempla o que penso. Jards é um diamante enorme que o grande público ainda não descobriu.
O sertão em dias chuvosos! Que maravilha! O cenário no qual a história das personagens se desenrola é, ele mesmo, uma personagem, produzindo, página a página, um sentimento de saudade no coração daqueles que amam o sertão e que, por uma razão e outra, tiveram de trocá-lo pela cidade.
A descrição do sertanejo vibrando de alegria com a chegada das chuvas é, deveras, tocante. As páginas facilmente remetem o leitor à lembrança de parentes e amigos que, ainda hoje, se comportam da mesma forma. Em Pássaros sem canção, quando o primeiro pingo d’água toca a terra seca, como na vida real, todos os pássaros cantam.
“Pássaros sem Canção” desafia nossa compostura, moldada por tradições de longa data. Apresenta o amor como fruto capaz de nascer em qualquer solo, mesmo naqueles regados a preconceito.
Jards Nobre nos tira do sério ao transformar nossa “moralidade cristã” em barras de ferro que impedem o voo, produzem tristeza e roubam a canção dos pássaros. Aos desavisados, digo: “Pássaros sem Canção” carrega a substância capaz de alterar conceitos, expor a velhacaria das crenças e libertar o que estiver sufocado pela observância ao modus operandi da nossa sociedade hipócrita. A história narrada por Jards é como o fruto do éden, capaz de fazer separação entre o leitor e a moral da Divindade, internalizando e naturalizando o que, antes da leitura, consideraríamos pecado.
Com lances impactantes, o autor apresenta o mal, sob sua pior forma, como algo que pode existir e, de fato, existe nos corações e na disposição de pessoas tão simples como aquele velho trabalhador sertanejo, perito na enxada, feitor de brocas e que se alegra com o cair da chuva. Como yin e yang, as personagens do livro abrigam dualidades, e cabe ao leitor apreciar o valor de cada expressão delas. Confesso que amei muito uma das personagens, mas somente até a página em que pude constatar a veracidade do que afirmo neste parágrafo.
Por outro lado, na história de vida de cada personagem do livro de Jards o leitor é levado a refletir no fato de que a felicidade, o amor e o senso de realização pessoal podem estar onde menos esperamos. Um beijo tem o poder de mudar o curso de uma vida, esta é a pregação do autor.
Certa amiga me perguntou se eu aconselharia que ela deixasse o filho, de quatorze anos, ler “Pássaros sem Canção”. Fui taxativo: não aconselho. Nenhuma criança necessita olhar a vida pelas lentes da crueza com a qual Jards a apresenta. A vida, apregoam as páginas da obra, pode ser implacável. O próprio autor reconhece que o livro não foi escrito para ser lido por menores de dezoito anos. Aliás, cenas quentes é o que não falta.
“Pássaros sem Canção” é, por fim, uma indução à quebra das correntes. Em cada canto não emitido, os pássaros do livro nos movem a fazer algo sobre a vida. No final, descobrimos que “Pássaros sem Canção” canta, e canta a liberdade com a qual todos nós sonhamos, mas que, por fraqueza, circunstâncias impostas ou outra coisa qualquer, teimamos em sufocar.
Eu li “Pássaros sem Canção”, e eu o recomendo.
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