Sair ganhando na derrota

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“Caso você veja, em sua província, a opressão do pobre e a violação da Justiça e do que é direito, não fique surpreso. Pois aquele que está em autoridade é observado por alguém superior a ele, e acima deles há outros em posição ainda mais alta.”(Eclesiastes 5: 8.)

Quem disser que a vida é sempre justa ainda não a viveu o suficiente. As injustiças são parte integrante da história humana desde seus primórdios. De fato, os principais acontecimentos do mundo tem quase sempre como pano de fundo a disputa entre conceitos de justiça e de injustiça. Detenha-se com mais atenção sobre qualquer livro de história e você perceberá isto facilmente.

Não importa quantos casos de injustiça sejam avaliados, não há pior injustiça para o injustiçado do que aquela perpetrada contra ele mesmo. Colocar-se no lugar do outro, exercitar a empatia, a compaixão, o senso de moralidade e de correção é uma coisa. Sofrer as agruras da injustiça na própria pele é outra bem diferente. Dói de verdade, mas quando não mata, fortalece e instrui de um modo que jamais poderia ser alcançado por outras vias.

No auge das suas dores, não é raro que o injustiçado considere vingar-se, mas são bem poucas as vezes em que a igualdade de condições lhe está disponível. A injustiça é assim mesmo: tem a covardia como companheira inseparável.

O autor de uma anotação registrada num livro de sabedoria milenar diz: “Também vi o seguinte debaixo do sol: no lugar da justiça havia maldade, e no lugar da retidão havia maldade.” (Eclesiastes 3:16, NWT) Longe de ser esta uma visão pessimista, trata-se, em verdade, de uma “observação fotográfica” do mundo.

Apesar desta situação, a vingança não parece ser realmente a melhor forma de lidar com a injustiça. Até porque, como diria o filósofo Platão, “quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz que o injustiçado”.

Realmente, quem produz injustiça paga um preço alto: perde a felicidade, a própria paz, perde a identificação com a parte boa da natureza humana, afasta-se da “semelhança de Deus”, desce um degrau na escada da dignidade. Torna-se moralmente sujo; e mais ainda se suja caso, após a injustiça, decida sustentá-la a todo custo, como se um anjo caído fosse, empedernido, arrogante e irresponsável.

Assim, no fim das contas do cálculo que realmente importa – aquele feito na calculadora de Deus -, o injustiçado que decide não se vingar é o menos derrotado das partes. Em geral, aquilo que ele perde, apesar de poder afetá-lo de forma significativa, não precisa necessariamente transformá-lo, nem nivelar por baixo o seu caráter, a sua disposição, a sua personalidade e a sua humanidade. Por outro lado, estas coisas acontecem automaticamente a quem toma para si as companheiras injustiça e covardia. Quem a elas se entrega se torna vencido, escravizado mesmo, à maldade.

Além do acima, o injusto torna-se um dependente: dependente de muletas para apoiar-se, de cúmplices, de mentiras e de comparsas. Torna-se, diante de si mesmo, uma farsa ambulante, um covarde aproveitador das conjunturas que estão a serviço do mal. A menos que tal pessoa renegue por completo os valores ligados ao amor, a amizade, à fraternidade, à bondade e à retidão, e passe a satisfazer-se como os porcos no lamaçal, que alegria verdadeira poderá ela ter na vida? Quão triste será sua condição!

Terreno diferente, porém, é o da superação de quem não se pauta pelo desejo de retaliar. Como pancada na canela durante pelada com amigos, a injustiça doerá; mas a vida, como aquela partida cheia de amizades e de risos, não será definida pelo momento indesejado. O choro de quem escolhe não desistir dos bons valores será passageiro, e não incomodará – como a lembrança de ter feito injustiça ou de ter se vingado dela -, durante os anos finais da velhice.

Isto de modo algum significa que devamos simplesmente aceitar o convívio com a injustiça. “A injustiça, por ínfima que seja a criatura vitimada, revolta-me, transmuda-me, incendeia-me, roubando-me a tranquilidade e a estima pela vida”, dizia Rui Barbosa, polímata brasileiro.

A injustiça deve mesmo indignar os bons, especialmente aqueles com poder para evitar sua perpetuação. Afinal, tão injusto quanto quem comete a injustiça é aquele que, tendo poder para impedi-la, deixa-a dar frutos à maldade. “O amor não se alegra com a injustiça” é passagem conhecida das leituras cristãs. (1 Coríntios 13:6.)

Finalmente, que as injustiças superadas sejam esquecidas. Que a maldade se limite aos seus lugares baixos; que as mãos da covardia não seduzam o caráter; que a vida seja boa, vivida com indomável alegria e repleta dos atos característicos do amor ao próximo e da virtude. Que o desejo seja de paz e que a indignação produza a defesa construtiva do bem, não da vingança. Se assim for, como não sairá o justo ganhando em suas derrotas?

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1975109_895395303833674_3941638773056511380_nPor Gooldemberg Saraiva




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